A Caça (Jagten)

O cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg sempre será lembrado como um dos caras (junto com Lars Von Trier) que criaram o Dogma 95, um movimento cinematográfico que foi criado com o intuito de se fazer um cinema mais realista e menos comercial. Por mais que, quase nunca, consigam seguir à risca todas as regras que eles mesmos criaram, suas produções geralmente resultam em grandes filmes, em histórias duras e sofridas e muito dramáticas e, “A Caça (Jagten/The Hunt)”, é mais um exemplo de uma produção muito bem realizada e premiada.

Lançado originalmente em 2012 (até deu as caras num festival em São Paulo no ano passado), “A Caça” teve seu lançamento comercial apenas agora neste ano de 2013, mais uma daquelas jóias cinematográficas que acabam não encontrando espaço nessa confusa distribuição dos filmes em nossos cinemas.

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Na trama somos apresentado a um professor de jardim de infância, Lucas (Mads Mikkelsen), que é muito querido pelas pessoas e, principalmente, pelas crianças no local onde vive. Certo dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), uma menina de 8 anos filha de seu melhor amigo, confunde seus sentimentos e acaba falando à diretora da sua escola que foi abusada sexualmente por Lucas (repetindo uma coisa que ouviu de seu irmão). A partir daí, a cidade inteira, até mesmo os seus mais leais amigos, se colocam contra o professor e tornam a sua vida um inferno.

Lucas estava passando por um momento de reconstrução na sua vida, separado da mulher que não queria deixar ele ver seu filho, encontrava em seus amigos do grupo de caça algum apoio. Estava começando a se dar bem com uma mulher e tinha uma previsão de, em breve, ter seu filho em casa por alguns dias. Só que depois dessa grave situação, tudo muda.

Ser acusado de abuso infantil é algo bastante sério e, de fato, é algo que a sociedade não tolera, algo abominável e imperdoável. Como se manter digno, como prosseguir com sua vida e conseguir se provar inocente quando todos tem a mais absoluta certeza do contrário? Afinal, para muitos, crianças não mentem, ainda mais levando em consideração a gravidade da acusação de uma conduta tão inapropriada.

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A direção de Thomas Vinterberg é excelente e encontra em Mads Mikkelsen uma atuação incrível que faz com que a dúvida, por mais que os fatos estejam sendo apresentados claramente, persista até mesmo para quem está acompanhado a história que é recheada de dor, tristeza e muita frieza. Durante a maior parte do tempo, as cenas seguem sequências de acontecimentos muito sutis e introspectivos.

O melhor de “A Caça” é conseguir conversar sobre assuntos tão sérios e duros (lá eles) sem necessariamente tomar uma posição mais contundente em relação à possível conduta inapropriada do professor ou ao ‘erro’ da criança. E quando a trama já parecia ter sido ‘resolvida’, existe uma sequência final que, à primeira vista, parece até desnecessária mas serve para deixar o filme ainda “vivo”.


jagten-posterA Caça (Jagten, 2012/2013 – 115 min)
Drama

Um filme de Thomas Vinterberg com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport e Ole Dupont.

16 comentários sobre “A Caça (Jagten)

  1. certamente estará em vários top 10 por aí e merecidamente!

    mas também achei aquela cena final um tanto desnecessária, meio que forçada até… mas nada que atrapalhe.

    grande ator o Mads Mikkelsen, que está ótimo também em O Amante da Rainha.

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  2. Eu fiquei preocupado com o parágrafo final do filme. Uma produção que não toma posições geralmente fraqueja na mensagem que quer passar. Como não vi não tenho como dar uma opinião concreta sobre isso.

    Ouvi falar do filme e o ator que protagoniza é mais um daqueles que não encontra espaço por não ter sex appeal. Ele só entra em filmes Hollywoodianos quando é para fazer algum vilão caricato do oriente europeu.

    Essa vontade que todo mundo tem de julgar é um dos maiores perigos da sociedade moderna. O mais triste é ver pessoas sem nenhuma capacidade para tanto exercitando isso e com poder para determinar ordens em cima de julgamentos equivocados. Até mesmo em nossa justiça o que mais vemos são aberrações neste sentido.

    Já vi que seria um longa que me deixaria muito incomodado eu não gosto muito de me sentir assim.

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    1. Não é muito pro lado de não tomar posição, é mais no juízo de valor da sociedade, será que é fácil perdoar algo tão hediondo? Será que ele fez mesmo isso, ou não?

      É muito bom esse filme, vale a pena Bill.

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  3. Infelizmente ele não entrou em cartaz aqui em minha cidade. Eu pagaria o ingresso só para prestigiá-lo, mesmo tendo assistido.

    A cena final é bastante necessária, sim. Ela deixa a mensagem clara do estrago que uma mentira pode causar. Lucas será estigmatizado para o resto da vida.

    E só uma sugestão, Marcio: não conte demais sobre o filme. Você escreve bem, mas acaba tirando a surpresa de muita gente.

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