O Museu dos Videogames

Ele chegou já era bem tarde da noite e a porta já devia estar trancada. Só que não seria surpresa para mim se na hora de ir embora eu visse, outra vez, que tinha esquecido de passar o cadeado.

Por alguns instantes fiquei apenas o observando. Ele passou pelos computadores franzindo a testa e balançando a cabeça. Na mão esquerda carregava uma caixa e com a direita saía apontando para cada uma das estações como se estivesse contando ou procurando algo.

Ei, cadê sua mãe ou seu pai? Já fechamos por hoje”. Falei enquanto caminhava em sua direção.

Tio, porque mudou tudo de lugar? Os videogames não ficavam do lado de cá?” Indagou o menino.

Ah… os videogames estão lá no fundo”.

Desde a época que comecei a trabalhar para os meus tios, muito antes de eu sequer sonhar em ser dono da loja, que os PC Gamers tinham tomado conta da locadora. Apenas os velhos mais saudosistas como eu, ou jovens curiosos que perdiam o interesse em minutos, iam até a sala dos fundos onde ficavam os consoles mais antigos. Alguns nem funcionavam mais e eram exibidos em prateleiras como se fosse um museu dos videogames.

O menino saiu correndo na frente e entrou na sala. Parou um tempo na frente do Playstation 2, cutucou, apertou e passou a mão em cima. Olhou para a tv presa na parede e deu um pulo para trás.

O que é isso tio? É importado é?”. Ele falou abraçando uma pequena caixa contra o peito. Era branca com um gradeado em linhas pretas mas não consegui ler o que tinha escrito.

É um Playstation 2, não é do seu tempo. É coisa velha”. Um sorriso veio no meu rosto não sei de onde. Já tinha tempo que não ria de verdade.

Parece um Top Game, é importado do japão né?”. O menino questionou mas antes de eu conseguir responder já emendou outra pergunta.

Cadê o Master System tio?”.

Apontei pra cabine atrás de onde estava o Playstation e ele arregalou os olhos novamente. Chegou perto e enfiou a cara tão próxima do console que parecia que iria entrar nele. Pegou os controles, apertou os botões e puxou o videogame pra perto de si.

Boca de zero nove! Tá cheio de coisa importada aqui, nunca vi um Master System desses azul!”.

Esse é o último que eles lançaram para relembrar os velhos tempos. Amanhã você vem aqui e vai poder jogar. Se quiser posso reservar pra você”. Respondi ainda tentando me lembrar há quanto tempo não ouvia aquela gíria.

Eu vim mais cedo mas ninguém deixava eu jogar, parecia que não tavam me ouvindo e eu não achava os videogames também, tio. Porque vem tanta gente ficar nas máquinas de trabalho da outra sala?”.

Os computadores? A maioria vem para jogar online”. Respondi já incomodado com a quantidade de vezes que estava ouvindo a palavra ‘tio’ naquela noite.

Onde é que coloca a fita nesse Masterzinho aqui? Num tô achando”. O menino falou sem parecer nem ter ouvido a resposta anterior.

Que fita rapaz? Esses que aceitam cartuchos não funcionam mais, tão ali em cima apenas para exibição”. Falei apontando pra prateleira onde tinha os consoles da Sega, dentre eles o Master System preto e vermelho clássico.

Tio, e como eu faço pra zerar esse jogo? Já olhei na revista, botei a combinação certa mas o fantasminha sempre me mata. Não aguento mais!”.

O garoto então me deu a caixa que tinha em mãos. Senti um arrepio gelado quando a segurei. Era um cartucho de Alex Kidd in Miracle World que já não era fabricado há anos, mas que estava em perfeito estado de conservação. Era como se fosse recém-comprado.

Não se preocupe, os jogos estão todos na memória e tem sim esse Alex Kidd. Agora esse cartucho aqui vale um bom dinheiro se quiser me vender”. Falei com o menino que começou a girar as duas mãos ao lado da cabeça com os dedos apontados para suas têmporas.

Tio, você é lelé da cuca, viu. Eu hein!”. O garoto deu umas boas risadas. Gargalhei junto sem entender nada.

Eu vim devolver a fita que aluguei, ela é daqui da locadora seu doido. Bom, amanhã eu volto então e você me ensina como passar da última fase. Pode ser?”.

O menino me entregou a caixa. Senti um arrepio quando a segurei. Olhei atrás dela e vi um adesivo colado. O nome da locadora estava impresso junto com uma data: 1989. Senti uma pontada que vinha do fundo da minha cabeça e, por um instante, me faltou até ar. Corri até a prateleira com os consoles da Sega e bem ao lado do Mega Drive tinham alguns cartuchos empilhados.

Puxei a chave do bolso, destranquei a portinhola de vidro e peguei algumas caixas. Tanto os jogos do Mega quanto os do Master tinham o mesmo adesivo com o nome da locadora e datas que iam de 1989 a 1995. Ainda segurando o jogo que o menino tinha me dado, olhei pro lado o procurando mas ele não estava mais ali.

Ei, garoto, me diz uma coisa”. Falei em voz alta.

Voltei para o salão principal chamando por ele. A sala também estava vazia. Olhei para todos os cantos e depois fui até atrás do balcão. Nenhum sinal dele. Caminhei até a entrada e empurrei a porta que não saiu do lugar. Estava trancada.

Quando olhei novamente para a capa do jogo, ela começou a envelhecer rapidamente na minha mão até ficar com o mesmo aspecto antigo das demais que estavam no museu da minha locadora. Abri a caixinha e encontrei o cartucho guardado bem no centro. Em cima dele tinha um cartão com algumas informações datilografadas.

Só Games— Locação de Videogames

Nome: Alexandre Jesus Silva.
Nº: 0009.
Tel: 222–1137
Sócio desde 1987.


*Conto originalmente escrito na minha conta no Medium.

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